O que é Arte?
O Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, segunda edição), em duas de suas definições da palavra “arte”, assim se expressa:
«atividade que supõe a criação de sensações ou de estados de espírito, de caráter estético, carregados de vivência pessoal e profunda, podendo suscitar em outrem o desejo de prolongamento ou renovação»...; «a capacidade criadora do artista de expressar ou transmitir tais sensações ou sentimentos...»
A arte nasceu da necessidade do homem em comunicar-se. Durante a pré-história, o homem precisava se conectar com o mundo invisível para garantir sua sobrevivência. As pinturas rupestres feitas na parede das cavernas, as danças e as músicas primitivas realizadas por nossos ancestrais eram o fruto do desejo em obter atenção divina para agradecer ou realizar pedidos aos Deuses- já que esses povos reconheciam a existência de seres invisíveis e superiores através das manifestações da natureza.
Ernest Gombrich, um estudioso de Arte, explica melhor esse fenômeno:
“A explicação mais provável para essas pinturas rupestres ainda é a que se trata das mais antigas relíquias da crença universal no poder produzido por imagens; dito em outras palavras, parece que esses caçadores primitivos imaginavam que, se fizessem uma imagem de sua presa- e até espicaçassem com suas lanças e machados de pedra--, os animais verdadeiros também sucumbiriam ao seu poder.”
Além do transe, o xamã- o líder espiritual de uma tribo- utilizava-se de todo tipo de meios de representações artísticas, como gestos, danças, objetos sagrados, vestimentas e etc. Assim, podemos concluir que a Arte surgiu como instrumento de comunicação entre o mundo físico e espiritual.
É claro que com o passar do tempo, a Arte foi ampliando suas manifestações, criando vertentes, diversificando-se através de diferentes estilos e aprofundando seus métodos como reflexo de cada cultura e sociedade à qual pertencia.
Neste sentido, podemos afirmar que a Arte é um espelho da sociedade. Ela reflete como cada povo vive, se organiza, revela suas crenças, hábitos, sonhos, medos e experiências. Muito do que sabemos a respeito de civilizações antigas, como a Grécia e o Egito, devemos à Arte.
O mais importante para se entender é que a Arte é intrínseca ao homem e sempre será. Enquanto vivermos, sentiremos a necessidade de explorar o mundo sensório através das realizações artísticas. Sentiremos a necessidade de expressar nossos mais profundos sentimentos. Sentiremos a necessidade de gritar ao mundo a dor e a beleza de sermos o que somos: seres humanos capazes da maior ambiguidade- aquilo que nos torna ao mesmo tempo magnânimos e imperfeitos- seres humanos capazes de criar e destruir.
Qual a função da Arte?
Mas afinal, para quê serve a Arte? Qual a sua verdadeira função? Apenas refletir o nosso entorno? Encher os nossos olhos de beleza, cores e formas? Nos divertir e encantar? Nos levar a um estado de catarse¹ e reflexão?
A humanidade foi passando por diversas transformações e podemos afirmar que a Arte e seu propósito, se modificaram de acordo com cada cultura a que pertenciam. Como já foi citado anteriormente, na Pré-História, a Arte possuía um caráter espiritual, onde os homens a utilizavam para se comunicar com o mundo invisível.
Na Idade Média, a igreja Católica restringia a função da Arte ao caráter totalmente religioso. Só podiam ser encenadas peças com temas cristãos. As pinturas cobriam os tetos e paredes das igrejas, ilustrando as passagens bíblicas e direcionando aos fiéis as crenças e a fé a ser seguida.
Antes do surgimento da fotografia, ou seja, durante muito tempo da história da Arte, alguns artistas dedicaram sua vida para representar a realidade, copiando fielmente o que lhes circundava.
A arte pode ter uma função terapêutica, como os estudos e aplicações da Arte-terapia comprovam. Pode ter uma função absolutamente estética, sem a preocupação de possuir uma utilidade específica. Pode servir de instrumento de mobilização social, como reflexão e crítica do que nos cerca. A arte pode ser instrumento para a educação, já que sua capacidade cognitiva é reconhecida por diversos estudiosos. Pode ter a função de despertar os sentidos, através de sons, movimentos, formas e cores.
O estudioso de Arte Ernst Fisher, escreveu um livro que explora a função e a necessidade da Arte:
“O pintor Mondrian falou do possível "desaparecimento" da arte. A realidade, segundo ele acreditava, iria cada vez mais deslocando a obra de arte, que essencialmente não passaria de uma compensação para o equilíbrio deficiente da realidade atual. "A arte desaparecerá na medida em que a vida adquirir mais equilíbrio". "A arte concebida como “substituto da vida”, a arte concebida como o meio de colocar o homem em estado de equilíbrio com o meio circundante - trata-se de uma ideia que contém o reconhecimento parcial da natureza da arte e da sua necessidade. Desde que um permanente- equilíbrio entre o homem e o mundo que o circunda não pode ser previsto nem para a mais desenvolvida das sociedades, trata-se de uma ideia que sugere, também, que a arte não só é necessária e tem sido necessária, mas igualmente que a arte continuará sendo sempre necessária.”
Nesse contexto, observamos que a Arte é necessária para que homem compreenda a si mesmo, para que ele se enxergue e consiga, através da catarse, transformar a si e ao mundo. Esta ideia pode parecer extremamente utópica, mas enquanto o homem existir, ele utilizará a Arte como meio indispensável para a sua união com o todo. A Arte reflete a infinita capacidade humana para a associação, para a circulação de experiências e ideias. Enquanto o homem existir, existirá a Arte.
1-Catarse, segundo o dicionário Aurélio: 1. Purgação, purificação, limpeza; e sob a rubrica “teatro”: 4. O efeito moral e purificador da tragédia clássica, conceituado por Aristóteles, cujas situações dramáticas, de extrema intensidade e violência, trazem à tona os sentimentos de terror e piedade.